sábado, 23 de janeiro de 2010

Cidade de Mafra

Constituindo núcleo único, a cidade de Mafra tem sua história estreitamente vinculada á cidade de Rio Negro - Paraná. A região foi cortada do Sul ao Norte pelos destemidos tropeiros, ligando a capitania de São Pedro do Sul a São Paulo. O que existia na época, era uma vereda aberta na mata pelo próprio gado, acarretando grandes prejuízos, com perdas de homens e animais. Em 1816, os tropeiros requereram a D. João VI à abertura de um caminho entre a Vila de Lages - SC e Lapa - Pr, trecho que até então era um sertão com toda espécie de perigos, totalizando 40 léguas. Com o surgimento da Estrada da Mata, houve a chegada dos primeiros imigrantes europeus, vindos da cidade de Trier, Alemanha em 1829, dando inicio ao processo de colonização.
Onde hoje situa Mafra - SC passou a ser um simples bairro de Rio Negro - Pr, um potreiro oficial das tropas, fora do perímetro urbano, eis a origem dos dois municípios estarem ligados.O Monge João Maria, eremita, chegou a Mafra - até o momento pertencente ao Município de Rio Negro, em 1851. Encontrou população sofrida com a Guerra dos Farrapos e dizimada por uma epidemia de varíola. Recomendou que 19 cruzes fossem erguidas entre a Capela Curada e a Balsa - Ponte Metálica. O constante movimento das Tropas trazidas do Sul para o Norte, foi derrubando essas cruzes e, a única que sobrou foi a da Praça Hercílio Luz, cuja fixação foi em 30 de Junho de 1851. Representa a fé do catolicismo rústico do homem simples da região.

Em 1870 criou-se o Município de Rio Negro e, os imigrantes alemães, poloneses, italianos, bucovinos, tchecos, ucranianos aceleraram o crescimento da região.
Em 1894, assumiu a Administração do Estado de Santa Catarina o Dr. Hercílio Luz que nomeou o Jurista Manoel da Silva Mafra, para advogar a causa das questões de limites entre os Estados do Paraná e Santa Catarina..
Em 1896, a questão de limites passa a ter um caráter judicial.Em 22 de novembro de 1896, no Governo de Francisco Xavier da Silva, inaugurou-se a Ponte Metálica - com 110 metros ao custo de R$ 270 contos de réis. Atingia exatamente a metragem na baixa do rio, da margem esquerda á direita.Muitas histórias existem em torno da inexplicável metragem da Ponte Metálica.
Após 18 anos de lutas incansáveis, o Presidente da República, Wenceslau Braz, promoveu o encontro entre os Governadores de SC e Pr, Dr. Carlos Cavalcante e Felipe Schimith, a fim de solucionar a pendência. Em 1917 os dois Estados reconheceram e homologaram as Linhas de Acordo. Em 25 de Agosto de 1917, a lei catarinense nº. 1.147 restaurou o município que lhe fora suprimido em virtude do acordo de limites de 20 de outubro de 1916 e, demarcaram os novos limites.
Em 08 de Setembro de 1917 foi instalado o Município, á margem esquerda do Rio Negro, que passou a dominar-se Mafra em honra e memória do Dr. Manoel da Silva Mafra, defensor de Santa Catarina na pendência.

A região onde se desenvolveu a comunidade de Mafra é altamente rica em reservas florestais, principalmente de pinheiro-araucária, erva-mate e outras espécies, que passou a representar por muitos anos sua principal atividade, da extração florestal, que permitiu o assentamento dos primeiros colonos, que mais tarde passariam a desenvolver as atividades da agropecuária de subsistência.
Mafra é considerada cidade pólo do Planalto Norte Catarinense.
Colonizada por diversos povos destacamos: Alemães, Poloneses, Ucranianos, Bucovinos, Italianos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

HISTÓRICO DA BAIXADA FLUMINENSE - RIO DE JANEIRO

Após a expulsão dos Franceses e o conseqüente aniquilamento dos índios Tupinambás é fundada em 1565 a Cidade do Rio de Janeiro. Iniciava a partir desta data a distribuição de sesmarias em todo o recôncavo da Baía de Guanabara. Liberada a terra dos perigos que poderiam oferecer as comunidades indígenas, é dado início à penetração no seu interior através de seus principais rios. Nascia no seu entorno dezenas de engenhos de açúcar, construções de igrejas e pequenas povoações, muitas delas origem dos municípios de hoje.

As bacias dos rios Meriti, Sarapui, Iguaçu, Inhomirim, Estrela e Magé foram as primeiras a serem ocupadas. Em suas margens nascem os portos de embarque. Bastante movimentados com a presença de tropeiros e de embarcações que subiam e desciam levando mercadorias da Europa para os engenhos e destes com seus produtos para a cidade do Rio de Janeiro, alem dos excedentes para o Reino. Os próprios portos eram transformados em importantes celeiros.

Os Engenhos de Cristóvão Barros em Magé no ano de 1567 e o de Salvador Correia de Sá na ilha do Governador, foram os primeiros a fumegar no atual território fluminense, após o fracasso da Capitania de São Tomé, de Pêro de Góis, com as suas fábricas de açúcar da Vila da Rainha e das margens do Itabapoana. Em 1584, menciona Anchieta "muitas fazendas pela baía dentro" e no ano seguinte diz ele ser a "terra rica, abastada de dados e farinhas e outros mantimentos, tem três engenhos..."

No século XVII o número de engenhos rapidamente crescia e o açúcar iria absorver quase toda a iniciativa dos fazendeiros do recôncavo da Guanabara. Cerca de 120 engenhos são levantados em torno da baía, e é o açúcar do recôncavo que vai afinal, como nos demais portos primitivos, erguer a economia da noviça cidade Rio de Janeiro. É também o açúcar o grande impulsionador do índice demográfico com a crescente entrada de africanos para as lavouras.

A paisagem natural vai deste modo modificando-se, fazendo aparecer os primeiros clarões nas florestas, não longe da entrada da baía começa a projetar toda uma população agrícola sobre os enflorestados morros do recôncavo e os intermináveis pântanos e alagadiços marginais.

O marco inicial da colonização no Vale do Rio Iguaçu foi a fazenda São Bento, teve sua origem nas terras doadas pela Marquesa Ferreira ao mosteiro de São Bento em 1596. Esta herdeira era viúva de Cristóvão Monteiro, primeiro proprietário das sesmarias ofertadas por Estácio de Sá no ano de 1565 em terras hoje pertencentes à cidade de Duque de Caxias.
Nesse local, os monges Beneditinos fizeram erguer inicialmente uma capela dedicada a Nossa Senhora das Candeias. No século XVIII, as terras passaram para as mãos da irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos.

Era também sede de grande fazenda de São Bento, cuja atividade econômica baseava-se na produção de farinha de mandioca e na fabricação de tijolos. Esta penetração teve início também com a fundação das primeiras igrejas e capelas. Uma das regiões logo de começo exploradas foi a das bacias do Meriti, do Sarapui e do Iguaçu.

É improvável, no entanto de fácil compreensão, que os primeiros núcleos de povoação não surgiram em torno de uma atividade puramente econômica, o colonizador era um homem extremamente devoto, ou quando não, demonstrava a sua religiosidade como forma de justificar o aquinhoamento de longas extensões de terras em nome da fé católica.
A presença das capelas e igrejas numa determinada região, demonstrava a importância que aquele território representava perante o poder secular e o poder eclesiástico. Essa célula inicialmente embrionária daria o surgimento de uma aldeia, uma freguesia, uma vila e mais tarde uma cidade.

Meriti assim teve as seguintes capelas descritas por Pizarro: a de São João Baptista, fundada pelos moradores de Trairaponga em 1645, em local desconhecido. Esta Capela funcionou como Matriz até o ano de 1660. Com o crescimento de uma vila próximo ao Rio Meriti (atualmente centro da Pavuna e do Município de Meriti), mandou-se construir em 1660 uma outra de pedra e cal (na Pavuna), transferindo inclusive a pia batismal, o que demonstraria a importância que este sítio assumia junto ao porto da Pavuna, que naquele momento já contava com uma grande quantidade de portos, que escoavam a produção agrícola como o milho, a mandioca, o feijão, o arroz, legumes, o açúcar e a aguardente e ao mesmo tempo recebia os produtos importados, já que a localidade da Pavuna e Meriti, além de serem portos fluviais era também o melhor ponto onde se entrava na Baixada pelos caminhos de terra firme, assim funcionava na localidade da Pavuna e do Meriti um verdadeiro entreposto comercial com toda a infra-estrutura com armazéns, trapiches, vendas e hospedarias. Por aqui passaram as pedras, azulejos, santos, móveis, pratarias, e outras quinquilharias que serviriam para ornamentar igrejas e fazendas que se construíram nas freguesias de Meriti e Jacutinga.

O ciclo do ouro ocorrido no interior do Brasil, traria importância para a ampliação dos caminhos da baixada. Após o abandono do Caminho dos Guaianazes que partia de Parati, abriu-se um novo caminho através da Baixada com ligação direta entre o Rio de Janeiro e as Minas, era o Caminho Novo de Garcia Paes em 1704 - passando por Xerém, Pilar e descendo o Rio Iguassú até o Rio de Janeiro.

Em 1724 abriu-se outro por Bernardo Soares de Proença, descendo a Serra de Estrela, atingia o Rio Inhomirim e o Estrela, onde existia o porto e indo em direção do Rio de Janeiro. Formando ai um importante Arraial que se transformou em Vila em 20 de Julho de 1846. A Vila da Estrela foi próspera, por ela passou a maior parte do ouro produzido na região das gerais, era o ponto final do caminho que durante mais de século recebia todos que se dirigiam ao interior.

Pelas águas do Rio Iguassú desceram a produção de café do vale do Rio Paraíba do Sul, atravessando a Baía em direção a cidade do Rio de Janeiro. Seu porto com uma dezena de armazéns em sua volta, atraiu para a localidade um grande contingente populacional, que se dedicaram nas mais diversas atividades de serviços, o arraial cresceu e virou vila em 15 de Janeiro de 1833. Era a mais próspera das Vilas Fluminenses, possuidora de todos os Órgãos Públicos.

O café foi plantado também nas encostas da serra do mar em Iguassú no século XIX, gerou tanta riqueza que promoveu a abertura em 1822 pela Real Junta do Comércio uma nova estrada a do "Comércio", ligando-se também a outra posteriormente construída a estrada da polícia que passava por Belém, dirigindo- se ao Rio Preto, este caminho passou a denominar-se "Caminho do Comércio", porém, só a partir de 1837 começaram os estudos para o seu calçamento, cujo trabalho ficou sob responsabilidade do coronel de engenheiros, Conrado Jacob de Niemeyer.

Na primeira metade do século XIX o mundo conhecia a segunda fase da revolução industrial - a dos transportes. A grande novidade era o barco a vapor e a locomotiva sobre trilhos. No Brasil, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, lançava com o apoio de capitais privados, a primeira ferrovia ligando o Porto Mauá - depois Estação da Guia de Pacopaíba à Fragoso e Inhomirim no pé da serra da Estrela, num percurso de 15,5 km.

Esta inauguração lançou as bases de uma grande transformação que se operaria ao longo da 2ª metade do século XIX, mudando completamente a configuração da geografia urbana da baixada. A ferrovia num movimento retilíneo rasgou a baixada, diferentemente do caminho seguido pelos rios em meandros. Para a construção das ferrovias aterraram-se pântanos e brejos e desmatou florestas, de forma que a natureza sofreu grandes agressões.

No entanto, as grandes transformações ocorreram no processo de ocupação humana. A primeira linha de construção foi em direção à região produtora de café. A Estrada de Ferro Pedro II (hoje Central do Brasil), chegou às cidades das encostas da serra do Gericinó e sul da serra do Mar em 1858 juntamente com Maxambomba (atual Nova Iguaçu), Queimados e Japeri.

Em 1876 com o objetivo de captar água para a cidade do Rio de Janeiro foi construída a estrada de Ferro Rio D'Ouro, à medida que avançava ia transportando os tubos de ferro e demais materiais completando as obras de construção das redes de abastecimento d'água. No entanto, foi somente em 1883 ainda em caráter provisório que começaram a circular os primeiros trens de passageiros que partiam do Caju em direção à represa Rio D'Ouro. Mais tarde esta ferrovia foi dividida em três sub-ramais: Ramal de São Pedro, hoje Jaceruba; ramal de Tinguá, que se iniciava em Cava (Estação José Bulhões); e o ramal de Xerém, partindo de Belford Roxo.

Em 23 de abril de 1886 é inaugurada a Estrada de Ferro Leopoldina Railway, concessionária da The Rio de Janeiro Northern Railway Company - era a primeira concessão para uma estrada de Ferro que, partindo diretamente da cidade do Rio de Janeiro, alcançava a região serrana de Petrópolis. A 28 de fevereiro de 1884 iniciou-se o trabalho para assentamento dos trilhos, o que levaria dois anos, até sua chegada em Merity (atual Duque de Caxias).

A estas ferrovias seguiram outras de menor importância, mas que faziam ligações com ramais auxiliares e complementares às linhas principais. Elas surgiram em um momento que a baixada não possuía estradas, apenas alguns caminhos carroçáveis que em tempos de chuvas eram intransitáveis. O meio de transporte comum era no lombo dos animais ou ainda através dos rios. A locomotiva passou a ser a melhor opção não só de passageiros mas também para o transporte de mercadorias.

A população cansada dos naturais isolamentos, das doenças ribeirinhas começa a mudar-se para as margens das ferrovias, em principal nas paradas dos trens - onde se tinha água e lenha que serviam como fonte de energia para a locomotiva. Nestas paradas surgiam pequenas atividades de comércio, cortadores de lenha, carvoeiros e homens de serviços em geral. O crescimento rápido desta população fez destas paradas importantes estações que serão embriões dos futuros distritos de Nova Iguaçu, como Nilópolis, Queimados, Japeri, Merity, Belford Roxo, Pilar, Xerém e Estrela. O assoreamento dos rios causado pelo desmatamento, as febres palustres e o fim da escravidão apressaram a decadência econômica da Baixada, o que levou a população em busca do Rio de Janeiro ou outras áreas produtoras para sobrevivência.

A expansão urbana neste século deu-se com a expansão das ferrovias. A venda de terras, outrora fazendas, retalhadas em lotes e vendidas a preços baixos para a moradia ou transformadas em sítios para o plantio de laranjais, estimulados pelos governos bem como a valorização no mercado mundial. Pelos diversos distritos de Nova Iguaçu cultivaram-se laranjais que ocuparam os morros e as colinas, fazendo a riqueza dos chamados capitalistas da laranja. As oscilações do mercado mundial com as guerras, as técnicas impróprias para o cultivo e a valorização de terras para fins urbanos após o saneamento, formaram a decadência da citricultura nesta região, dando lugar às "cidades dormitórios" de uma população laboriosa que se deslocavam para o Rio de Janeiro, diariamente, em busca do mercado de trabalho.

O processo desenvolvimentista inaugurado com a revolução de 1930, a capitalização do campo, a seca no nordeste, a saída em massa do campo e a crise no sistema de parceria levaram ao êxodo rural. O inchaço populacional nos grandes centros urbanos e a exploração imobiliária pelo aumento constante do metro quadrado do solo na capital, acaba empurrando grandes contingentes populacionais, para estas históricas terras.

As fazendas fracionadas em sítios e chácaras com seus imensos laranjais e horti-fruti-granjeiros, transformam-se em áreas de loteamentos, de grilagem e ocupações irregulares. Freguesias viram Distritos e estes em municípios. A Estação de Merity, com seu povoado em volta, vira o 8º Distrito em 1931 com o nome de Caxias e São Matheus vira 7º Distrito com o nome de Nilópolis, todos desmembrados de Meriti, que pertencia a Nova Iguaçu. Após o regime de exceção, na esteira do populismo, o 8º Distrito emancipa-se ganhando status de Município, levando consigo São João de Meriti, que é transformado em seu 2º Distrito. São João de Meriti, não se conforma e em 1947, emancipa-se de Duque de Caxias e, na mesma lei, Nilópolis de Nova Iguaçu.

Envolvida com enormes conflitos ambientais, graças a um crescimento urbano pouco planejado, ainda temos nessa região, bairros residenciais convivendo com industrias de grande potencial poluidor, não só nos rios, com seus despejos in natura em águas que deságuam na Baia da Guanabara, como na atmosfera, agravada por sua posição geográfica entre o mar e a serra, dificultando ainda mais a dispersão de poluentes como o monóxido de carbono gerado de veículos automotores. Entretanto, entre a degradação dos manguezais e o abandono dos nossos sítios históricos e arqueológicos, vamos encontrar ainda uma flora exuberante alimentando a bio-diversidade de nossa região.

É templo de salvar tudo isso: rios, matas, cachoeiras, sítios e prédios históricos devem ser priorizados não só sobre o ponto de vista cultural, mas como fator vital de sobrevivência, na preservação de recursos naturais como a água. Temos no Nordeste brasileiro, quadros sombrios, com a devastação de florestas durante séculos, que levaram a falência, seus recursos hídricos. Com um potencial tão rico em bio-diversidade, turismo e ecologia inexplorado de nossa região, aguarda o trabalho dos nossos governantes, pois somos na Baixada Fluminense os primeiros no Brasil.

domingo, 17 de janeiro de 2010

ARQUITETA E HISTORIADORA RETRATA A CIDADE REBELDE DO RIO DE JANEIRO

A arquiteta e pesquisadora Jane Santucci está ultimando o livro Rio: uma cidade rebelde. Nele traça o quadro das rebeldias do Rio de Janeiro na virada do século 19 para o 20 -- quando a então capital do Brasil viveu a a Revolta do Vintém, ainda no Império, a primeira greve geral, a greve das carnes verdes e a Revolta da Vacina, estas entre 1902 e 1904.
O livro de Jane Santucci recorta um momento de uma história de explosões cariocas que começa bem mais cedo e vai até bem mais tarde. Na primeira delas, nos idos de 1821, a tropa e o povo obrigam Dom João VI a jurar a Constituição ainda nem escrita mas proclamada como objetivo pela Revolução do Porto. Há dezenas de outras, chegando até as da luta contra a ditadura, como o enterro de Edson Luís, a Sexta-feira Sangrenta e a Passeata dos 100 Mil -- três eventos que completam quatro décadas em 2008.

O período focado em Uma cidade rebelde, sem ser o único, é dos mais ricos dessa trajetória irrequieta. A arquiteta, também historiadora do Passeio Público, descreve uma capital onde os pobres começam a deixar os cortiços pelas favelas, e a capoeira é criminalizada, com seus mestres deportados para Fernando de Noronha. Abaixo, alguns trechos do livro. Neles o leitor achará as linhas paralelas, as convergentes e as divergentes em relação à metrópole de um século mais tarde.

''Nas ruas da cidade os grupos de capoeiras conhecidos também como maltas se enfrentavam na luta pelo controle informal de territórios. Entre 1850 e 1890, o centro da cidade foi dividido em territórios controlados pelas principais maltas: 'Nagoas' e 'Guaiamus', formadas a partir de várias falanges que dividiram as freguesias entre si. Sendo rivais, viviam em estado de guerra e arregimentavam até cem pessoas. As maltas comportavam escravos libertos e escravos ao ganho (aqueles que viviam nas ruas vendendo mercadorias ou oferecendo serviços e pagando uma parcela do que obtinham a seus senhores).''

''No inicio da Republica, o novo Código Penal transformou a capoeiragem em crime e começou a perseguição aos capoeiras que eram autuados como contraventores. A presença do capoeira na rua tornou-se uma ameaça à ordem pública e a luta compreendida como uma espécie de arma, o caráter coletivo da prática, uma forma de rebelião. As maltas resistiam protegidas em seus guetos que eram os cortiços, espalhados pelo centro, locais onde a policia não entrava.''

''Intrépidos e ousados, os capoeiras eram temidos e ao mesmo tempo exerciam fascínio nos meninos pobres que sonhavam pertencer ao grupo. A iniciação acontecia em torno dos 10 anos, quando o aprendiz acompanhava as maltas portando as armas. Depois passavam por um treinamento até os 14 anos, momento em que era considerado apto para o combate e dava-se inicio a curta carreira, pois muitos jovens morriam antes de chegar aos 22 anos, na luta contra os adversários ou com a própria policia.''

''Em cortiços e estalagens moravam cerca de 25% da população carioca, distribuída entre as freguesias do centro. Diante da proliferação de moradias insalubres no centro, nas quais a peste mais vitimava e o crime se alastrava, médicos e engenheiros higienistas, apoiados pela opinião pública, deram inicio a uma campanha pela erradicação dos cortiços da região. O primeiro grande cortiço a cair foi o Cabeça de Porco no mandato do prefeito Barata Ribeiro. O espetáculo da demolição foi um acontecimento que repercutiu por toda a área central atraindo uma multidão. Com grande aparato, o prefeito apresentou-se para a demolição acompanhado de soldados do Primeiro Batalhão de Infantaria, Corpo de Bombeiros e dezenas de operários para colocar abaixo o precário conjunto de moradias. A estalagem estava situada logo atrás de uma pedreira do Morro da Favella,( hoje da Providencia), onde uma das proprietárias do cortiço possuía vários lotes. De imediato se estabeleceram negócios entre a usurária e os despejados dando inicio a construção dos barracos na encosta.'' ''Enquanto as atenções estavam voltadas para os cortiços, a favela crescia silenciosamente e à medida que os cortiços iam desaparecendo com as demolições, a favela ia se firmando e aumentava seus domínios para outros morros que circundavam o centro.''

''Em 1900 uma matéria no Jornal do Brasil denuncia que o morro da Favella é “infestado de vagabundos e criminosos que são o sobressalto das famílias”. O Jornal Gazeta de Noticias de 21 de maio de 1903, dizia: “ O morro da Providencia sempre foi um lugar célebre de capoeiragem e assassinatos. Outrora no lugar onde hoje só existe um cruzeiro, mandado fazer pela Santa Casa bem no pico da montanha, é que davam lições de capoeiragem. Chamavam o China Seco e a policia monárquica nunca pode acabar com esse centro de horror. Depois da guerra dos Canudos, os mais ousados facínoras voltaram a habitar o píncaro do morro, denominando-o de Favella, porque no reduto não há policia que não seja derrotada”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O Popular e as lutas pela terra no Sertão Carioca

Assim como nos programas do PSB sobre as questões nacionais e a abordagem que O Popular faz sobre elas, boa parte da cobertura realizada sobre a questão de terras no Sertão Carioca desempenhava uma importante função de conformação de uma identidade política ao nível do discurso. Isto é, as reportagens não só tinham um caráter informativo, como difundiam também – seja por meio de argumentos ou afirmativas explícitos, seja pela forma como os fatos eram enfocados – concepções e valores ideológicos e doutrinários. Com isso, buscava-se demarcar as singularidades de sua posição no campo político local e nacional, principalmente em relação às duas grandes forças da esquerda como PCB e PTB. Isso não excluía, decerto, algumas convergências e pontos de contato com os mesmos.

Uma das primeiras reportagens sobre conflitos de terra no Sertão Carioca foi publicada em 10 de julho de 1951 sobre um caso ocorrido em Pedra de Guaratiba, envolvendo Pedro Moacyr, pretenso proprietário, e famílias de pequenos lavradores. Podemos encontrar nela muitos pontos comuns entre a abordagem realizada pelo jornal socialista e os jornais ligados a outras correntes políticas, como o comunista Imprensa Popular e trabalhista O Radical e até mesmo com o liberal-conservador O Globo. Neles há uma contundente condenação às investidas do pretenso proprietário em despejar dezenas de famílias de pequenos lavradores. “Selvageria”, “desumanidade”, “monstruosidade”, são qualificativos recorrentemente utilizados para descreverem tais ações. Mas na reportagem seguinte, sobre o mesmo caso, já é possível verificar alguns pontos de divergência. No fim da matéria o jornal ironiza a atitude do’Globo e do Diário Trabalhista – jornal de propriedade do próprio Pedro Moacyr - em qualificar a resistência dos lavradores à ação do pretenso proprietário como uma manobra arquitetada por comunistas:

"Sentindo que os lavradores estavam dispostos a reagir, o senhor Pedro Moacyr resolveu regressar a Capital para dizer pelas colunas de um matutino [Diário Trabalhista] que os caboclos que cultivam suas terras eram comunistas: que resistiam obedecendo a instruções do partido, etc., como se proteger a família e bens é coisa, apenas, de comunistas".

O caso de Pedra de Guaratiba levava o jornal a mais uma vez afirmar a sua posição sobre a questão do anti-comunismo, que a seu ver era muito mais um instrumento de preservação de interesses do que um valor de fundo “patriótico e cristão”. E aqui o PSB divergia não só da direita como também de amplos setores do trabalhismo, que de igual forma fomentavam a indústria do anti-comunismo.

Em outros momentos, o esforço em se diferenciar do PCB se fazia acompanhar de um alinhamento com as posições do PTB. Enquanto os jornais comunistas procuravam disseminar entre os pequenos lavradores o sentimento de descrença e ilegitimidade nas autoridades públicas – visto ser um agente incapaz de solucionar as situações de injustiça no campo, seja por ineficácia do aparelho de justiça seja pelo próprio comprometimento de setores ou membros do Estado com os latifundiários – os socialistas, assim como os trabalhistas, procuravam exatamente difundir uma idéia contrária: a do Estado como interlocutor legítimo e seguro para o encaminhamento de demandas. E talvez mais do que isto: ele seria um verdadeiro aliado. Neste sentido, é significativo que as reportagens sobre os eventos realizados pelos pequenos lavradores junto aos centros de poder da Capital da República os classifiquem não como ações de “protesto” – como o faz a imprensa comunista – e sim como tentativas de conseguir uma “audiência” com autoridades políticas. Ou seja, a oportunidade em que os pequenos lavradores expõem as suas demandas e reivindicações não são fruto de seu esforço de organização e mobilização, mas fundamentalmente uma concessão das autoridades públicas. A audiência é também o momento em que esta autoridade reforça por meio de palavras de apoio a sua adesão à causa daqueles a quem ele escuta. E ao destacar que a autoridade política demonstra tal adesão exatamente no horário (expediente) e no lugar em que exerce tal função, enquanto “pessoa pública”, o jornal mostra que tal apoio não parte de uma pessoa em particular, mas do próprio Poder Público. A “audiência” é, portanto, um momento de simbolização de uma relação de aliança e fidelidade entre agentes que os comunistas, ainda sob a égide do Manifesto de Agosto, insistiriam em apresentar como adversários praticamente irreconciliáveis.

Vejamos o que teria ocorrido com "numerosa comissão" de pequenos lavradores cariocas constituída por duas representações: uma de Pedra de Guaratiba e a outra da Fazenda do Piaí (Sepetiba). Numa “audiência” com o prefeito, na hora do seu “despacho com o secretário de agricultura”, elas pediram “providências do governo contra os despejos em massa”. Segundo o jornal, o prefeito respondeu que sentia "profundo respeito pela causa dos lavradores", dizendo que a municipalidade "já estudava" um meio para sustar os despejos. E acrescentava que o fazia por “recomendação expressa do presidente da República, para quem a situação dos lavradores rurais é objeto de constante e atenta preocupação”. Alguns meses depois, segundo o’ Popular, o vereador pessedista Osmar Resende teria tentado uma audiência dos lavradores com o próprio Getúlio Vargas. Algo que foi conseguido por alguns membros do Sindicato de Trabalhadores Rurais do Rio de Janeiro, que tiveram uma audiência com Vargas no Palácio Rio Negro, em Petrópolis. Na ocasião, eles teriam entregado-lhe um memorial em que "solicitavam maior ajudam financeira para a lavoura do Distrito Federal". O presidente teria, como resposta, manifestado "o inteiro apoio do governo Federal às reivindicações apresentadas".

Com a morte de Getúlio em agosto de 1954 caia por terra também o esquema de financiamento (realizado a partir do Banco do Brasil) de órgãos da imprensa para o reforço de sua imagem junto à opinião pública. O Popular foi exatamente um dos últimos jornais a serem laureados com tal “ajuda”, só participando de tal esquema a partir de 1954. Em outubro do mesmo ano encerrava definitivamente suas funções.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

OS CICLOS ECONÔMICOS E A FORMAÇÃO DO ESPAÇO URBANO DO BAIRRO DE CAMPO GRANDE NO RIO DE JANEIRO.

O pau-brasil, a cana-de-açúcar, o café e a citricultura, contribuíram para o povoamento da Região Oeste, que nos seus áureos tempos, chegou a ser conhecida como “Sertão Carioca”. Hoje a agricultura não têm mais grande importância para a região que cedeu espaço para os loteamentos, a construção civil, o comércio e as indústrias. A ocupação da enorme área onde se situa o bairro de Campo Grande está vinculada a doação das primeiras sesmarias e tem suas origens no Século XVI, quando, a partir da fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1565, começou praticamente o povoamento inicial, não apenas de Campo Grande, mas também de todas as áreas próximas. Os primeiros a chegarem foram gente vinda de Portugal que foram aos poucos expulsando os índios (Picinguabas) que aqui existiam.

Nos primeiros anos da colonização do Brasil (1567) já se verificam os primeiros registros sobre Campo Grande e Santa Cruz em antigos mapas do Rio de Janeiro existentes no Serviço Geográfico do Exército. Mas a ocupação inicial propriamente dita começou através dos caminhos que levavam para a Fazenda de Santa Cruz e com a cultura canavieira, esse processo ocorreu também em todas as outras áreas da cidade do Rio de Janeiro. Nessa época a Freguesia de Nossa Senhora do Destêrro de Campo Grande, como assim se denominava, formava, juntamente com as freguesias de Iguassu, Marapicu, Jacarepaguá, Itaguaí, Guaratiba e Jacutinga, o antigo distrito de Guaratiba, onde, em 1779, se encontravam a maioria das fazendas de açúcar do Baixada do Rio de Janeiro. Segundo o historiador e geógrafo Alberto Ribeiro Lamego, Campo Grande possuía nesse período quinze engenhos de açúcar, sendo o Engenho de Palmares um deles.

A produção da cana-de-açúcar foi a responsável pelo primeiro grande aumento populacional e a ela se deve também a organização social, baseada no poder dos Senhores de Engenho, que, com o crescimento das safras e o conseqüente aumento da população, transformavam os engenhos em núcleos populacionais que tinham na “Casa Grande” o seu pólo sócio-econômico. O declínio da produção de cana-de-açúcar em todo essa região começou a ocorrer, motivado, em grande parte, pela concorrência do açúcar da região de Campos.

Foi durante esse período que começou a ser construída a Igreja matriz de Nossa Senhora do Destêrro de Campo Grande, em 1796, e que teve sua Capela-Mor sagrada em 1808, quando da vinda da família real para o Brasil. Junto com a igreja, foram surgindo construções nas imediações, quase sempre construídas em terrenos alugados pelas fazendas, pois a venda de terras não era costume comum nessa época.

Com o fim do ciclo do açúcar começaram os cafezais a se espalharem pelo Rio de Janeiro, cujas primeiras mudas foram trazidas da Guiana Francesa. Este ciclo econômico, embora pouco expressivo na região, devido a inúmeros fatores, teve, em Campo Grande, principalmente na região do Mendanha, um núcleo inicial que foi a fazenda do Padre Antônio Lopes da Fonseca de onde saíram mudas que subiram serra acima, alcançando Nova Iguaçu, Resende, Areias, Vassouras e todo o vale do Rio Paraíba.

A libertação do escravos em 1888 contribuiu para o fim do ciclo do café no Rio de Janeiro e a recuperação econômica da área de Campo Grande ocorreu com a implantação da citricultura, que se constituiu num dos melhores períodos da economia da região. Para esse sucesso, muito contribuiu a inauguração do ramal de Santa Cruz, da Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurado em 02 de dezembro de 1878. Este ramal tinha uma estação em Campo Grande e a sua localização fez com que as casas comerciais e residenciais se localizassem próximas à ela.

A análise isolada da economia de Campo Grande e sua importância nesse período é bastante difícil, já que os plantadores possuíam terras dedicadas ao cultivo da laranja, tanto em Campo Grande, quanto em Nova Iguaçu. Mas mesmo assim durante o período dos grandes laranjais, Campo Grande foi um dos maiores produtores do Brasil, exportando muita laranja para os Estados Unidos e até para a Europa.

O declínio da cultura da laranja ocorreu devido a praga da mosca mediterrânea que ocasionou o apodrecimento dos estoques durante a época da II Guerra Mundial, a partir daí a praga se desenvolveu tornando-se incontrolável.

Segundo Valentim Ferreira Guimarães, herdeiro de J.Guimarães, um dos mais importantes exportadores brasileiros de laranja, o problema maior não foi só a mosca mediterrânea, a fumagina ou a formiga, e sim os loteamentos que começavam a surgir em Campo Grande e áreas próximas, com os moradores destruindo os laranjais e ocasionando muitos prejuízos.

Com o fim deste ciclo, Campo Grande ainda viveu um curto período econômico voltado para a avicultura, que teve seu inicio na Estrada do Mato Alto, com o aviário do Sr. Bartolomeu Rabelo. Segundo ele, a avicultura enfrentou duas grandes dificuldades que a levaram a não resistir a concorrência de São Paulo. A primeira foi a grande queda da produção no verão devido ao forte calor e à falta de meios para combatê-lo. A segunda, foi que a alimentação das aves, constituída de farinha de carne, farinha de osso e milho, era comprada em São Paulo, o que tornava muito caro o preço do produto. No início da década de 1960, essa atividade também chegou ao fim e terminava assim o ciclo agrícola da região.

Com os laranjais servindo de propaganda para à divisão de terras e à venda de pequenas chácaras, começou então um processo de abertura de loteamentos e de criação de indústrias que não parou mais e esse processo de urbanização prossegue em Campo Grande até os dias atuais.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Clara Zetkin (1857-1933)

Clara Zetkin (1857-1933)Figura de destaque do movimento operário alemão e internacional, marcou notavelmente as lutas do movimento feminista. No SPD, Clara Zetkin, juntamente com Rosa Luxemburgo, foi uma das principais figuras da esquerda revolucionária do partido.Clara Zetkin nasceu em Eissner Wiederau, uma aldeia camponesa na região da Saxónia, Alemanha. O seu pai, Gottfried Eissner, mestre e organista da igreja, foi um protestante devoto, enquanto a sua mãe, Josephine Vitale Eissner, veio de uma família burguesa de Leipzig e tinha formação superior.
Tendo estudado para se tornar professora, Zetkin desenvolveu ligações com o movimento das mulheres e com movimento operário na Alemanha de 1874. Em 1878, entrou para o Partido Socialista dos Trabalhadores (Sozialistische Arbeiterpartei, SAP).
Este partido foi fundado em 1875 pela fusão de duas partes anteriores: o ADAV formado por Ferdinand Lassalle e SDAP de August Bebel e Wilhelm Liebknecht. Em 1890 o seu nome foi mudado para o que se tornou a sua versão moderna - Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD).Por causa da proibição por Bismarck, em 1878, instituída à actividade socialista na Alemanha, Zetkin partiu para Zurique em 1882, e em seguida partiu para o exílio em Paris. Durante o tempo passado em Paris, ela desempenhou um papel importante na fundação do grupo socialista da Internacional Socialista.

Na altura adoptou o nome do seu amante, o revolucionário russo Ossip Zetkin, com quem teve dois filhos, Kostja e Maxim. Ossip Zetkin morreu em 1889. Mais tarde, Zetkin foi casada com o artista Georg Friedrich Zundel, dezoito anos mais novo que ela, de 1899 a 1928.No SPD, Clara Zetkin, juntamente com Rosa Luxemburgo, sua amiga íntima e confidente, foi uma das principais figuras da esquerda revolucionária do partido. No debate sobre o revisionismo na virada do século XX, ela, juntamente com Luxemburgo, atacou as teses reformistas de Eduard Bernstein.

Zetkin estava muito interessada na política feminista, incluindo a luta pela igualdade de oportunidades e o direito de voto das mulheres. Ela desenvolveu o movimento social-democrata de mulheres, na Alemanha; entre 1891-1917 editou o jornal de mulheres do SPD "Die Gleichheit" (Igualdade). Em 1907 Zetkin tornou-se líder do recém-fundado "Instituto da Mulher" no SPD.Clara Zetkin lançou as bases para o primeiro "Dia Internacional da Mulher", a 8 de Março de 1911, tendo proposto a ideia no ano anterior, em Copenhaga, aquando da II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, no sítio que mais tarde se tornou o Ungdomshuset (uma espécie de casa cultural e ponto de encontro para grupos autónomos e de esquerda).

Durante a I Guerra Mundial, Zetkin, juntamente com Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo e outros políticos influentes do SPD, rejeitou a política do partido de Burgfrieden (uma trégua com o governo, prometendo abster-se da marcação de greves durante a guerra).Entre outras actividades anti-guerra, em 1915 Zetkin organizou uma Conferência Socialista Internacional de Mulheres Anti-Guerra, em Berlim. Por causa da sua postura anti-guerra, foi presa várias vezes durante a guerra.

Em 1916, Zetkin foi uma dos co-fundadores da Liga Spartaquista e do Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD), que se separou em 1917 do seu partido mãe, o SPD, em protesto contra a sua posição pró-guerra.Em Janeiro de 1919, depois da Revolução alemã em Novembro do ano anterior, o KPD (Partido Comunista da Alemanha) foi fundado e Zetkin também se juntou a este e representou o partido entre 1920-1933 no Reichstag.Em 1922, Clara Zetkin entrevista Lenine sobre "A Questão da Mulher".Até 1924, Zetkin foi membro do escritório central do KPD. De 1927 a 1929, foi membro do comité central do partido, tendo também integrado o Comité Executivo da Internacional Comunista (Comintern) de 1921 a 1933. Em 1925 foi eleita presidente da organização de solidariedade alemã de esquerda, a Rote Hilfe.

Em Agosto de 1932, como presidente do Reichstag por antiguidade, Zetkin convocou todos a lutar contra o nacional-socialismo.Quando Adolf Hitler e o seu partido Nacional-Socialista Alemão chegaram ao poder, o Partido Comunista da Alemanha foi banido do Reichstag, após o incêndio do Reichstag, em 1933.Clara Zetkin exilou-se pela última vez, desta vez na União Soviética. Aí morreu, no Archangelskoye, perto de Moscovo, em 1933, com quase 76 anos. Foi enterrada junto ao muro do Kremlin, em Moscovo.

sábado, 25 de julho de 2009

Índios do Brasil

São considerados de origem asiática. A hipótese mais aceita é que os primeiros habitantes da América tenham vindo da Ásia e atravessado a pé o Estreito de Bering, na glaciação de 62 mil anos atrás. Pesquisas arqueológicas em São Raimundo Nonato, no interior do Piauí, registram indícios da presença humana, datados de 48 mil anos . O primeiro inventário dos nativos brasileiros só é feito em 1884, pelo viajante alemão Karl von den Steinen, que registra a presença de quatro grupos ou nações indígenas: tupi-guarani, jê ou tapuia, nuaruaque ou maipuré e caraíba ou cariba. Von den Steinen também assinala quatro grupos lingüísticos: tupi, macro-jê, caribe e aruaque. Atualmente estima-se que sejam faladas 170 línguas indígenas no Brasil.

Estima-se que, em 1500, existiam de 1 milhão a 3 milhões de indígenas no Brasil. Em cinco séculos, a população indígena reduz-se aos atuais 270 mil índios, o que representa 0,02% da população brasileira. São encontrados em quase todo o país, mas a concentração maior é nas regiões Norte e Centro-Oeste. A Funai registra a existência de 206 povos indígenas, alguns com apenas uma dúzia de indivíduos. Somente dez povos têm mais de 5 mil pessoas. As 547 áreas indígenas cobrem 94.091.318 ha, ou 11% do país. Há indícios da existência de 54 grupos de índios isolados, ainda não contatados pelo homem branco.
Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia aproximadamente 100 milhões de índios no continente. Só em território brasileiro, esse número chegava 5 milhões de nativos, aproximadamente. Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central), aruaques (Amazônia) e caraíbas (Amazônia).

Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas e protegidas pelo governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.

A sociedade indígena na época da chegada dos portugueses.

O primeiro contato entre índios e portugueses em 1500 foi de muita estranheza para ambas as partes. As duas culturas eram muito diferentes e pertenciam a mundos completamente distintos. Sabemos muito sobre os índios que viviam naquela época, graças a Carta de Pero Vaz de Caminha (escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral ) e também aos documentos deixados pelos padres jesuítas.

Os indígenas que habitavam o Brasil em 1500 viviam da caça, da pesca e da agricultura de milho, amendoim, feijão, abóbora, bata-doce e principalmente mandioca. Esta agricultura era praticada de forma bem rudimentar, pois utilizavam a técnica da coivara (derrubada de mata e queimada para limpar o solo para o plantio).

Os índios domesticavam animais de pequeno porte como, por exemplo, porco do mato e capivara. Não conheciam o cavalo, o boi e a galinha. Na Carta de Caminha é relatado que os índios se espantaram ao entrar em contato pela primeira vez com uma galinha.

As tribos indígenas possuíam uma relação baseada em regras sociais, políticas e religiosas. O contato entre as tribos acontecia em momentos de guerras, casamentos, cerimônias de enterro e também no momento de estabelecer alianças contra um inimigo comum.

Os índios faziam objetos utilizando as matérias-primas da natureza. Vale lembrar que índio respeita muito o meio ambiente, retirando dele somente o necessário para a sua sobrevivência. Desta madeira, construíam canoas, arcos e flechas e suas habitações (oca). A palha era utilizada para fazer cestos, esteiras, redes e outros objetos. A cerâmica também era muito utilizada para fazer potes, panelas e utensílios domésticos em geral. Penas e peles de animais serviam para fazer roupas ou enfeites para as cerimônias das tribos. O urucum era muito usado para fazer pinturas no corpo.

A organização social dos índios

Entre os indígenas não há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os mesmo direitos e recebem o mesmo tratamento. A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho (machado, arcos, flechas, arpões) são de propriedade individual. O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio. Já os homens da tribo ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e derrubada das árvores.

Duas figuras importantes na organização das tribos são o pajé e o cacique. O pajé é o sacerdote da tribo, pois conhece todos os rituais e recebe as mensagens dos deuses. Ele também é o curandeiro, pois conhece todos os chás e ervas para curar doenças. Ele que faz o ritual da pajelança, onde evoca os deuses da floresta e dos ancestrais para ajudar na cura. O cacique, também importante na vida tribal, faz o papel de chefe, pois organiza e orienta os índios.

A educação indígena é bem interessante. Os pequenos índios, conhecidos como curumins, aprender desde pequenos e de forma prática. Costumam observar o que os adultos fazem e vão treinando desde cedo. Quando o pai vai caçar, costuma levar o indiozinho junto para que este aprender. Portanto a educação indígena é bem pratica e vinculada a realidade da vida da tribo indígena. Quando atinge os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta.

Os contatos entre indígenas e portugueses

Como dissemos, os primeiros contatos foram de estranheza e de certa admiração e respeito. Caminha relata a troca de sinais, presentes e informações. Quando os portugueses começam a explorar o pau-brasil das matas, começam a escravizar muitos indígenas ou a utilizar o escambo. Davam espelhos, apitos, colares e chocalhos para os indígenas em troca de seu trabalho.

O canto que se segue foi muito prejudicial aos povos indígenas. Interessados nas terras, os portugueses usaram a violência contra os índios. Para tomar as terras, chegavam a matar os nativos ou até mesmo transmitir doenças a eles para dizimar tribos e tomar as terras. Esse comportamento violento seguiu-se por séculos, resultando no pequenos número de índios que temos hoje.

A visão que o europeu tinha a respeito dos índios era eurocêntrica. Os portugueses achavam-se superiores aos indígenas e, portanto, deveriam dominá-los e colocá-los ao seu serviço. A cultura indígena era considera pelo europeu como sendo inferior e grosseira. Dentro desta visão, acreditavam que sua função era convertê-los ao cristianismo e fazer os índios seguirem a cultura européia. Foi assim, que aos poucos, os índios foram perdendo sua cultura e também sua identidade.




Religião Indígena

Cada nação indígena possuía crenças e rituais religiosos diferenciados. Porém, todas as tribos acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados. Para estes deuses e espíritos, faziam rituais, cerimônias e festas. O pajé era o responsável por transmitir estes conhecimentos aos habitantes da tribo. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos índios em grandes vasos de cerâmica, onde além do cadáver ficavam os objetos pessoais. Isto mostra que estas tribos acreditavam numa vida após a morte.

Principais etnias indígenas brasileiras na atualidade e população estimada

Ticuna (35.000), Guarani (30.000), Caiagangue (25.000), Macuxi (20.000), Terena (16.000), Guajajara (14.000), Xavante (12.000), Ianomâmi (12.000), Pataxó (9.700), Potiguara (7.700).
Fonte: Funai (Fundação Nacional do Índio).